12.4.10

A greve dos professores em SP: partidarismo inescrupuloso e utilização da categoria como massa de manobra

"... Um pouco antes, ela [a presidente da APEOESP] convocou os professores a "acabarem com o partido" de Serra: "Estamos aqui para quebrar a espinha dorsal desse partido e desse governador", disse Bebel, como é conhecida. E perguntou ainda: "Vocês acham que o Serra vai ser eleito?". E os manifestantes responderam "não" em coro."

"A greve decretada pelo sindicato dos professores de São Paulo é uma greve contra os pobres --a sorte do sindicato é que os pobres não sabem disso."
Gilberto Dimenstein, na Folha

D e s d e   o início da greve dos professores da rede pública do estado de São Paulo em 8 de março,  desencadeada pelo discurso inflamado da presidente do sindicato da categoria e apoiado pelos seus representantes regionais em todas as diretorias de ensino do estado e principalmente estimulada pelos sindicatos e associações ligadas ao PT, tomei a iniciativa de escrever sobre o assunto a fim de expor minha opinião sobre os fatos, porém resolvi aguardar o desfecho do movimento que começou sem credibilidade alguma, perdeu a razão ao tumultuar o caótico transito de São Paulo, e configurou-se como um movimento partidário através das declarações infelizes de sua presidente e de seus enfrentamentos com policiais na capital que acabou resultando em vários feridos – entre eles professores e até policiais.

É preciso se considerar que, antes de mais nada, greve é um direito de todo trabalhador, e sua utilização como instrumento de mobilização é uma arma democrática poderosa de defesa dos direitos e na busca por benefícios igualitários em uma sociedade tão desigual quanto a nossa – isso desde que seja construída e desenvolvida de forma genuína com os interesses da classe trabalhadora acima das disputas partidárias e eleitoreiras, o que não aconteceu desta vez.

Já participei de movimento grevista, bem como também deixei de participar de outros quando não vi de fato o interesse da categoria de qual fazia parte soberanamente considerados na manifestação. E tive uma relativa sorte nas duas ocasiões: em um ato mal pensado e mal planejado alguns colegas simplesmente perderam a razão e por isso tiveram de arcar com as conseqüências, e em outro conseguimos negociar parte da pauta de reivindicações, além de recebermos apoio do TRT responsável pela região. As medidas incabidas da empresa na ocasião contra a nossa paralisação foram punidas de forma rigorosa e até hoje a empresa cumpre obrigações junto ao TRT por desrespeitar os trabalhadores – apesar de suas manobras utilizando a mídia e das tentativas de desestabilização do bom relacionamento entre famílias de trabalhadores perseveramos numa manifestação pacífica, negociadora e acima de tudo justa.

A utilização do instrumento da greve de forma ilegítima como luta partidária em ano de eleições pela executiva do sindicato dos professores em São Paulo acabou por tornar-se num episódio vergonhoso para a sua liderança e aos professores paulistas que a ela aderiram. Não posso negar de maneira alguma o direito de mobilização por melhores salários, melhores condições de trabalho e por valorização que os professores possuem, bem como a real necessidade de melhorias no setor, porém os boatos propagados pelo movimento em relação a medidas adotadas pelo governo como parte da reestruturação do programa educacional da rede pública estadual (como por exemplo o repúdio ao Projeto de Alfabetização Ler e Escrever do qual tive oportunidade de participar como universitário-pesquisador no último semestre do ano passado e a falsa informação de que a propaganda do governo referente a presença do 2° professor em sala de aula era enganosa) simplesmente corroboraram para manifestar o real interesse do movimento grevista. Assim, a utilização de um meio legítimo com propósitos ilegítimos e finalidades escusas acabou por se arrastar sem êxito algum.

Desta forma, a utilização ilegítima de um instrumento democrático legítimo em um estado de direito como o nosso pode tornar-se numa arma contra a democracia, contra os interesses da maioria da população e transformar em caos a sociedade organizada. Se não, vejamos: professores mobilizados em greve, alunos sem aula nas instituições, vandalismo nas ruas, caos no transito de grandes cidades... e consequentemente professores sem salários (o que ocorrerá em maio com os profissionais que aderiram ao movimento), descrédito da população no ensino público, manifestações totalitárias e sem nenhum respeito pelas liberdades e direitos dos demais cidadãos...

Concluindo, reconheço que a luta por melhores condições salariais e de trabalho bem como pela valorização de uma categoria indispensável ao desenvolvimento humano e social de uma sociedade deve ser uma constante até que os problemas sejam substancialmente resolvidos. As esferas governamentais a nível federal, estadual e municipal precisam ser sensibilizadas para essa realidade. Por outro lado, os professores não podem fugir da luta, mas também não podem jamais ceder aos apelos do partidarismo eleitoreiro e sem compromisso  com a cidadania, responsabilidade e pela atitude republicana proposto pelos partidos de oposição, afinal a classe não pode em nenhum momento deixar-se ser utilizada como massa de manobra. Só assim alcançaremos êxito em uma luta pela igualdade, pelo reconhecimento e pela valorização de nossos bons profissionais através de mobilização justa e genuinamente legítima cujos meios e fins genuinamente democráticos se encarregarão de construir uma sociedade justa e solidária, ciente de seus compromissos e responsabilidades individuais e sociais.



S i d n e i   M o u r a

2 comentários:

  1. Achei muito intressante o seu blog e logo me identifiquei , pois concordo em alguns aspectos do que foi apresentado ,me utilizei de um dos seus texto para me embasar durante a construçao de minha monografia.Seus textos são execelentes,te desejo sucesso e que o Senhor abençoe a sua vida.. Fike na Paz

    Rainilda

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  2. Rainilda,

    Muito obrigado!

    Se quiser compartilhar comigo, conte-me que textos utilizou para sua monografia e qual foi o seu resultado. Será um prazer, pois isso apenas contribui com o meu propósito de colaborar!

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