23.8.11

Insensato Coração: modelos de família e transmissão de valores e tradições na contemporaneidade


Com estrondoso sucesso de audiência encerrou-se nesta sexta-feira mais uma novela da Rede Globo de autoria de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Insensato Coração conquistou o coração dos brasileiros por apresentar através de alguns de seus principais atores histórias em muito relacionadas com o atual momento da nossa sociedade em que crimes e conflitos de todas as naturezas acontecem constantemente em um país onde muitos cidadãos inconformados com a corrupção e impunidade já não conseguem acreditar de forma plena em muitas das instituições da sociedade.

Particularmente não me considero um noveleiro – a última novela de que me lembre de não ter perdido nenhum capítulo foi veiculada já há muito tempo... Minhas atividades como estudante universitário no limiar da formatura após quatro anos de graduação noturna aliadas ao meu sincero desinteresse pela teledramaturgia global me afastaram a tempos da frente da TV nos horários de novelas. Já a muito tempo tenho preferido series, filmes e outros programas de melhor conteúdo à teledramaturgia. 

No entanto, alguns fatores de “Insensato Coração” me despertaram interesse, e durante minhas férias de julho acompanhei o desenrolar de algumas histórias de alguns personagens da trama, e resolvi fazer algumas reflexões a respeito, porém esperei o encerramento do folhetim para me certificar dos episódios sobre os quais refleti. Após assistir a reapresentação do último capítulo no sábado,  uma das declarações de uma das personagens nos minutos finais fecharam meu raciocínio sobre dois temas específicos que nortearão minha reflexão aqui: valores da família e liberdade de expressão.

Valores da família

Nascidos e criados em famílias de modelo tradicional, Giovanni (Miguel Roncato), Chicão (Wendell Bendelack) e Eduardo (Rodrigo Andrade)  optaram por seguir caminhos diferentes dos propostos por seus pais: optaram pela orientação sexual homoafetiva e consequentemente por um estilo de vida diferente, e por essa razão foram vítimas de uma certa medida de incompreensão ou preconceito. 

No folhetim global, Giovanni viveu sua infância sendo vitimado por maus tratos e era agredido constantemente por seu pai, o que acabou levando-o a abandonar sua própria família. Foi recebido de forma respeitosa e educada por Sueli (Louise Cardoso), mas acabou sendo assassinado por Vinicius (Thiago Martins)  – um homofóbico declarado que protagonizou durante toda a trama diversos excessos que acabaram por torná-lo um dos mais escrachados vilões da novela. Chicão, por sua vez reclamava da insistência de seus pais em fazê-lo abandonar suas escolhas. De acordo com ele seus pais eram evangélicos e agiam em casa sob orientação de um pastor homofóbico que insistia em impregnar na cabeça de seus fieis a anormalidade da homoafetividade, o que era repetido por seus pais de forma enfática dentro de casa. Já Eduardo, filho de Sula e do jornalista Kleber (Cássio Gabus Mendes)  chegou a ter relacionamentos heteroafetivos, porém depois de algum tempo optou pela homoafetividade, assumindo seus sentimentos pelo intelectual professor de direito Hugo (Marcos Damigo). No final da trama, os dois oficializam união estável homoafetiva diante do juiz, de sua família e amigos.

A respeito das questões da família, a declaração de Vitória (Nathalia Timberg) nos últimos minutos da novela são importantíssimos nessa reflexão: a sociedade muda, e com ela todas as instituições devidamente constituídas também mudam, inclusive a família. Vivemos hoje essa realidade: é cada vez mais crescente o número de famílias lideradas por pais e mães separados, e com o reconhecimento da união estável para casais do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal um novo modelo de família tende a ser formado, embora a definição constitucional e original de família seja constituída de uma relação entre duas pessoas de sexo oposto com condições de procriação subentendidos, embora saibamos que a família em seu molde original e constitucional foi e continuará sendo a célula-mater da sociedade.

Apesar de todas essas configurações da família pós-moderna, é preciso levar em consideração a tradição e o modelo de cada família onde os indivíduos nascem, e ainda que os modelos baseados na configuração original e constitucional persistam (ora, são maioria) também é preciso que se reconheça que sua militância na transmissão legítima de valores, modelos e tradição ainda que muitas vezes conflituosos face às novas proposições da sociedade devem ser respeitados, o que é claro deve ser feito por meio do amor, do respeito, da harmonia e da fraternidade eliminando qualquer possibilidade de surgimento de preconceitos no exercício desta transmissão de valores. Cabe a cada um dos descendentes dessas famílias exercitarem de forma legítima seus direitos em tomar para si esses valores como fatores de condução de suas vidas ou seguirem o seu próprio caminho optando pelos valores, modelos e tradições que melhor se aplicarem ao seu ideário.

Liberdade de expressão

A legitimidade das famílias de configuração original e constitucional em transmitir seus valores a seus descendentes manifesta-se também como liberdade de expressão, e por essa razão deve ser respeitada como tal.

 A propaganda de um partido político na TV nos últimos meses destacou sua militância pela defesa dos interesses da família e chamou a atenção por trazer a tona uma questão vigente: segundo a propaganda do partido em questão há segmentos da sociedade querendo impor a família valores que não lhe são próprios, e isso se dá quando se impõe a ela princípios diferenciados ou quando se tenta suprimir sua legitimidade na transmissão de seus propósitos – um exemplo claro dessa realidade foi a recente tentativa fracassada de setores do governo e de segmentos da sociedade em expor estudantes do ensino fundamental e médio a conteúdos escolares de cunho de orientação sexual com finalidade de se privilegiar uma orientação específica em detrimento da orientação da maioria das famílias brasileiras. A transmissão de modelos, costumes e tradições na formação dos indivíduos é de responsabilidade legítima das famílias, sejam elas configuradas pelos moldes originais e constitucionais ou pelos novos modelos vigentes, e não da escola ou de outros segmentos da sociedade, e isso deve ser respeitado por todos. À sociedade e seus segmentos constituídos cabem o incentivo a tolerância, ao respeito e ao convívio harmonioso com as minorias e com a diversidade.

Voltando a trama de insensato Coração, a religião parece ter sido apontada como fator preponderante no conflito familiar de um dos personagens da trama citado anteriormente. Trata-se de valores transmitidos de maneira descuidada. De fato, as religiões baseiam seus princípios de constituição de família nos moldes da família originalmente composta – um modelo capaz de transmitir não apenas valores e princípios, mas também de manter a reprodução da espécie humana. É conhecido de todos que a grande dificuldade das religiões em aceitar os modelos familiares não constituídos de casais heteroafetivos baseia-se numa única premissa: a impossibilidade da manutenção da reprodução da espécie – uma premissa lógica, de comprovação natural e de consequências que merecem serem levadas em consideração. Nesse aspecto, a religião como proponente de ideias e princípios dos quais acredita serem importantes para o desenvolvimento da sociedade através de sua legítima expressão deve ser respeitada, e jamais poderá as utilizar como pretexto para a prática do preconceito e de fomentação do ódio e da violência às minorias ou a segmentos de orientação contraria, inclusive dentro da família, seja ela de modelo original e constitucional ou de outras configurações.

Realidade e ficção

Norma e Léo morreram. Vinicius e Cortez foram presos. Raul e Carol se casaram, o filho de Pedro e Marina nasceu e Nathalie foi eleita deputada. Insensato coração acabou, e embora muitas das histórias das personagens da trama se assemelhassem a corações insensatos da vida real, a novela foi apenas uma ficção comercial. Aqui, na vida real, muitos são os corações insensatos a serem despertados para uma verdade cada vez mais tangente: é preciso separar opinião de preconceito – duas definições diametralmente distintas.

É preciso que a minoria respeite a maioria, e vice-versa. Mais do que nunca, é importante que as pessoas levem em consideração o fato de que seus direitos terminam quando os direitos dos outros começam, e possam dessa forma viver sem impor seus ideais a outros, e que respeitem a liberdade dos indivíduos. Embora na ficção muitos conflitos acabem por não se resolver, na vida real só haverá verdadeira harmonia quando exterminarmos de forma autenticamente sensata o preconceito, o ódio e a violência do seio das famílias e demais instituições da sociedade contemporânea.

Um comentário:

  1. MEU AMADOS, AMO O MEU PRÓXIMO COMO MANDA A PALAVRA DE DEUS, PORÉM AMAR NÃO QUER DIZER CONCORDADR COM O ERRO. TODOS NÓS ERRAMOS, SOMOS FALHOS, PORQUE SOMOS SER HUMANOS, PORÉM ERRAR NÃO SIGNIFICA PERMANECER NO ERRO. DEUS AMA A TODOS INCLUSIVE OS GAYS, O QUE DEUS NÃO ACEITA É A PRÁTICA, QUE CONTRAREIA A SUA PALAVRA.
    Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. 1 Coríntios 6:10
    Eu creio que o problema todo reside no fato de que:
    Sempre quando um Gay entra numa igreja ele é visto como um ser inferior, O pecador mais terrível que se encontra naquele lugar. Enquanto que o texto bíblico emparelha de igual para igual vários tipos de pecadores:

    “Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus“. 1 Coríntios 6:10

    Sonegou o Imposto de Renda ? É ladrão !
    Olhou com desejo para outra mulher ? É adultero !
    Não deu de comer para o pobre ? É avarento !
    Idolatra seu carro, seu dinheiro, seu poder, seu status,... ? É idólatra !
    De vez enquanto escapa um palavrão de sua boca ? É maldizente !

    Porque há espaço dentro das igrejas para todos estes tipos de pecadores, menos para os efeminados ??

    Preconceito é o problema !
    Se um gay quiser frequentar sua igreja, surpreenda-o, acolhendo-o com carinho e não o acusando de seu pecado. No fundo ele sabe que é errado. A sua consciência e o Espírito Santo o acusará e o converterá a seu tempo.

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