18.7.09

O imperador Nero: o incêndio de Roma e o início da perseguição aos cristãos no primeiro século

Líder supremo do império romano dos anos 54 a 68 da era cristã, Nero é até hoje uma das figuras históricas mais polêmicas de todos os tempos. Seu nome completo era Nero Cláudio Augusto Germânico. Nasceu na cidade de Anzio (na atual Itália) no dia 15 de dezembro de 37 d. C.

Nero tornou-se imperador romano em 13 de outubro de 54 d. C., numa época de grande esplendor do Império Romano. Nos cinco primeiros anos de seu governo, Nero mostrou-se um bom administrador. Na política, usou a violência e as armas para combater e eliminar as revoltas que aconteciam em algumas províncias do império.

No tocante às guerras de expansão, Nero demonstrou pouco interesse. De acordo com os historiadores da antiguidade, empreendeu apenas algumas incursões militares na região da atual Armênia.

Suas decisões políticas, militares e econômicas eram fortemente influenciadas por algumas figuras próximas. Entre elas, podemos citar sua mãe, Agripina, e seu tutor, Lucio Sêneca. Nero é apontado por documentos da época como possuidor de conhecimentos e talentos nas artes dramáticas, poesia e música, além de grandes conquistas em campeonatos de corrida de cavalos e bigas.

Sua obsessão pela fama e aplausos levou-no a cometer atrocidades como o assassinato de diversos assessores, de uma de suas amantes grávida e de sua própria mãe. Acredita-se também na possibilidade de Nero possuir comportamento homossexual.

O incêndio de Roma e o início oficial da perseguição contra os cristãos

No dia 20 de julho de 64 d.C., o episódio do incêndio da cidade de Roma foi um dos piores capítulos da história do Império Romano (e de toda humanidade) sob comando de Nero, e o marco da perseguição dos cristãos pelo império no primeiro século. Segundo historiadores, Nero possuía um plano para mudar a arquitetura de Roma - ele desejava modificar a sua aparência e sua estrutura, mas não sabia como colocar em prática um plano tão ambicioso. Segundo historiadores da época, Nero planejou o incêndio da cidade, e enquanto visitava sua terra natal ordenou que o plano do incêndio fosse colocado em prática. Ao regressar a Roma e encontrá-la em chamas, fez um discurso emocionado, e em lágrimas prometeu que os culpados pelo incêndio seriam punidos de forma rigorosa. Enquanto Roma ardia em chamas, Nero tocava tranquilamente sua lira em um local alto com vista para a cidade enfumaçada. Caio Svetonio (75-160 d. C.) em sua obra De Urbe a Nerone incensa (Roma incendiada por Nero) faz o seguinte registro sobre o caos em Roma:

“...mas não poupou nem o povo nem para os muros da pátria. Quando alguém, numa conversa, citou: “Depois que eu morrer, desapareça também a terra nas chamas!”, [Nero] disse: “Não, enquanto estou vivo!”, e fez isso mesmo. De fato, como que ferido pela feiúra dos velhos edifícios e das ruas estreitas e tortuosas, incendiou Roma de modo tão evidente que muitos cônsules, mesmo tendo surpreendido em suas propriedades os criados de Nero com estopa e tochas, não ousaram tocá-los; e alguns depósitos, próximos da domus Aurea, cuja área desejava ocupar, foram demolidos por máquinas de guerra e dados às chamas, pois eram construídos em pedra [...] Aquele flagelo cruel durou seis dias e sete noites, impelindo a plebe a buscar refúgio nos monumentos e nos cemitérios. Então, além de um número incontável de casas, foram devoradas pelo incêndio também as residências dos antigos generais, ainda adornadas pelos despojos inimigos, e os templos dos deuses, alguns votados e dedicados desde o tempo dos reis, e outros durante as guerras púnicas e gálicas, e tudo o que restara digno de ser visto ou lembrado da antiguidade. Contemplando o incêndio da torre de Mecenas e alegrado - são palavras dele - “pela beleza das chamas”, cantou a destruição de Tróia vestindo sua roupa de cena. E, para não deixar nem mesmo nessa ocasião de se apropriar da maior quantidade possível de presas e de despojos, depois de ter prometido remover gratuitamente os cadáveres e os destroços, não permitiu a ninguém que se aproximasse dos restos de seus haveres. E não apenas aceitou contribuições, mas as exigiu em tal medida que arruinou as províncias e os particulares”.

Além desse plano, a preocupação de Nero com o crescimento dos cristãos na Judeia e em todo império, e principalmente em Roma o afligia, pois os cristãos eram os únicos cidadãos que se negavam a prestar-lhe culto como deus-homem, e pregavam a igualdade entre as pessoas. Foi quando Nero resolveu transferir aos cristãos a responsabilidade pelo incêndio da cidade, incitando a opinião pública contra os indefesos crentes, a fim de destruí-los.

Registros da época dão conta de que os meios de tortura e martírio dos cristãos foram os mais diferenciados e terríveis possíveis: alguns foram crucificados, outros entregues a leões e animais ferozes nas arenas de estádios, nas praças e no grande Coliseu em espetáculos de nível nacional, outros foram queimados e utilizados como tochas de fogo para iluminar a cidade a noite, inclusive os próprios jardins particulares de Nero ao redor de seus palácios imperiais. Segundo a tradição, esses eventos culminaram com a morte dos apóstolos Pedro e Paulo. Cornélio Tácito (54-119 d. C.) em sua obra Annales sobre a perseguição aos cristãos, fez o seguinte registro sobre as atrocidades cometidas por Nero na condenação dos cristãos:

“...nem todos os socorros humanos, nem as liberalidades do príncipe, e nem as orações e sacrifícios aos deuses podiam desvanecer o boato infamatório de que o incêndio não fora obra do acaso. Assim, Nero, para desviar as suspeitas, procurou achar culpados, e castigou com as penas mais horrorosas a certos homens que, já dantes odiados por seus crimes, o vulgo chamava cristãos[...]a sua perniciosa superstição [o cristianismo], que até ali tinha estado reprimida, já tornava de novo a grassar não só por toda a Judéia, origem deste mal, mas até dentro de Roma [...]Em primeiro lugar se prenderam os que confessavam ser cristãos, e depois pelas denúncias destes uma multidão inumerável, os quais todos não tanto foram convencidos de haverem tido parte no incêndio como de serem os inimigos do gênero humano. O suplício desses miseráveis [cristãos] foi ainda acompanhado de insultos, porque ou os cobriram com peles de animais ferozes para serem devorados pelos cães, ou foram crucificados, ou os queimaram de noite para servirem como de archotes e tochas ao público. Nero ofereceu os seus jardins para esse espetáculo, e ao mesmo tempo dava os jogos do Circo, confundido com o povo em trajes de cocheiro, ou guiando as carroças. Desta forma, ainda que culpados, e dignos dos últimos suplícios, mereceram a compaixão universal por se ver que não eram imolados à pública utilidade, mas aos passatempos atrozes de um bárbaro”.

A partir daí as perseguições se intensificaram contra os cristãos. Aqueles que escaparam do incêndio da cidade e do terrível martírio no Coliseu, nas praças públicas e estádios, tiveram suas propriedades, bens e ocupações confiscadas e foram obrigados a deixar a cidade, passando a viver nas catacumbas ao redor de Roma na mais profunda miséria. Enquanto isso, os demais cidadãos de Roma que o reconheciam como deus e que haviam perdido seus pertences e propriedades pelas chamas eram beneficiados com novas moradias, alimento e outros benefícios.

Vítima de grandes conspirações em todo império por parte de seus opositores, Nero acabou por instalar uma política terrorista a fim de se manter no poder. Nesse ínterim, diversas províncias do império declararam rebelião contra seu governo, e sua própria guarda responsável pela sua segurança e de sua família declarou estar oposta aos seus princípios, levando o Senado romano a declará-lo como principal inimigo público do império. Ciente de sua insustentabilidade fugiu para uma propriedade que possuía em uma região rural, e ali se suicidou, com 31 anos de idade. Suas últimas palavras foram: "Qualis ariefix pereo!" (que artista estás [Roma] perdendo), mostrando sua terrível arrogância nos últimos momentos de sua vida.

As perseguições impetradas por Nero, bem como toda sorte de perseguição imposta por outros que lhe sucederam, não foram suficientes para segurar o avanço do evangelho. Como dizia Tertuliano, “o sangue dos mártires foi a semente dos cristãos”, e quanto mais o império os perseguia, mais os cristãos se multiplicavam.

Desde os tempos das primeiras conversões logo após a fundação da igreja com o derramamento do Espírito Santo em Jerusalém, a bíblia registra que o cristianismo experimentou crescimento em massa justamente em períodos de forte oposição a divulgação do evangelho.

Embora em nossos dias seja notório o crescimento do evangelho em países democráticos e que garantem por lei a liberdade religiosa, não podemos nos esquecer dos países cujos governos totalitários não apenas sufocam os direitos básicos de seus cidadãos, mas também oprimem a liberdade de manifestação religiosa, condenando muitos cristãos pela divulgação da palavra de Deus e pela prática de culto.

No entanto, nos últimos anos temos testemunhado a derrocada de diversos governos ditatoriais, comunistas e socialistas, e com sua queda, a chegada da liberdade religiosa. Assim tem acontecido em países muçulmanos como Afeganistão e Iraque, como também em regimes socialistas e comunistas, como a Rússia, e o enfraquecido regime de Fidel Castro, que muito oprimiu e martirizou cristãos desde sua ascensão ao poder, mas que tem se mostrado cada vez mais aberto, em Cuba.

Além das perseguições em forma de tortura e martírio de cristãos em todo o mundo, os cristãos genuínos enfrentam hoje uma nova modalidade de perseguição, muito mais sutil: a perseguição ideológica pós-moderna. Baseada em argumentos filosóficos, humanísticos e da falsa ciência, cristãos em todo o mundo são vítimas de ataques em todos os níveis da sociedade organizada, desde a comunidade, no trabalho e até mesmo nas universidades, e que possuem um forte aliado responsável pela sua disseminação: a mídia.

As perseguições aos cristãos é realidade. No entanto, o próprio Cristo garantiu vitória aos seus súditos em meio às perseguições. Ele prometeu que nem mesmo as portas do inferno prevaleceriam contra a igreja, pois ela está edificada sobre a rocha inabalável.

Imagem: busto de Nero



Sidnei Moura

5 comentários:

  1. gostei desse site pois relata tudo o que presencismos para fazer nossos trabalhos escolares , parabéns para quem escreveu este site.

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    1. Olá,

      Fico feliz de que meus textos possam estar contribuindo em suas pesquisas escolares. Muito obrigado pela visita e comentário!

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  2. Há outras versões:
    1- Que o grande incêndio na cidade de Roma acontecido na noite de 18 de julho de 64 foi acidental. Historiadores modernos acreditam que o mais provável é que o fogo tenham nascido por um acidente perto do Circo Máximo, um hipódromo romano. Nas redondezas, havia um "camelódromo" com centenas de cubículos de madeira e telhado de palha ocupados por astrólogos, prostitutas e cozinheiros, que usavam o fogo para cozinhar e iluminar o ambiente. O calor do verão em Roma era intenso e as chamas de um desses cubículos se alastraram. Por causa do clima quente e da enorme quantidade de madeira, o fogo se espalhou, atingindo lojas de materiais inflamáveis da área e para piorar, estaria soprando em Roma um forte vento no sentido sudeste, que teria atiçado as chamas e feito com que o fogo se espalhasse com rapidez pela cidade, deixando pouco tempo para que as pessoas fugissem pelas ruelas estreitas e tortuosas. O fogo teria se disseminado primeiro por esses prédios precários de madeira e em seguida teria avançado para os setores mais ricos, destruindo também construções onde vivia a nobreza. Alguns relatos dizem que as tentativas de apagar o fogo foram impedidas por bandidos, interessados em saquear as casas abandonadas. Há relatos que Nero teria até ajudado a debelar o incêndio, assim que soube da terrível fatalidade, teria tomado as providências necessárias para que os danos fossem aplacados na medida do possível.
    2- Outra versão é de que Popéia, a esposa de Nero, uma judia que odiava os cristãos, teria mandado incendiar Roma para por a culpa nos cristãos e depois os crucificarem em praça pública. Pesquisas recentes afirmam que Nero não se encontrava nas imediações de Roma quando o grande incêndio aconteceu. Ele se encontrava em sua residência de Ânico, à aproximadamente cinquenta quilômetros de distância da capital do império, o que de certa forma contribui para esta última versão.

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  3. Nesta época os cristão faziam parte dos judeus que queriam libertar o Reino de Deus (a terra prometida) da mão dos romanos. Não era uma doutrina separada e os apóstolos que ficaram faziam parte do 2° Templo de Jerusalém. Os cristãos que vivam escondidos nas catacumbas não era para esconder sua imensa bondade. Nesta época a guerra contra os romanos na Terra Santa era imensa. Nem Nero teria motivos para provocar um incêndio (e pagar a conta) muito menos sua esposa "judia"! Mas interessava a luta de libertação da Palestina. Isto era tão provável que o povo de Roma aceitou os indícios deste atentado. Certamente pelo seu comportamento "nada cristão" que eram odiados pelo povo pobre.

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