8.8.15

O Bocado Molhado - o apelo final de Cristo à Judas Iscariotes



Queriote, localidade de Moabe (Jr 48.24), a pouco mais de vinte e dois quilômetros ao sul de Hebrom, e a vinte e cinco quilô­metros a oeste do mar Morto, era uma cidade como outra qual­quer, não fosse a referência a um de seus filhos — Judas Iscariotes, no hebraico Ish-Querioth, "Homem de Queriote". Escolhido para o colégio apostólico, Judas tinha nas mãos as mais inacreditáveis oportunidades; afinal de contas, Jesus o havia escolhido para um elevado ofício: cuidar das finanças do grupo apostólico. Certamen­te possuía características que justificassem sua escolha. 

Seguindo as pegadas de Judas durante o ministério público de Jesus, podemos delinear o perfil deste, que será lembrado por toda a história como o "traidor". Suas atitudes gananciosas revelam profundas feridas, veias maléficas que o acompa­nharam durante toda a vida. Judas era o único dos discípulos de Jesus que não provinha da Galiléia; era de Queriote, Judéia. Os habitantes da Judéia desprezavam os naturais da Galiléia como rudes colonizadores de fronteiras. Essa atitude pode ter .alienado Judas Iscariotes do grupo apostólico, dificultando sua relação com os demais discípulos. Tais fatores sedimentariam, levando-o a um fim trágico (At 1.18). 

Durante a construção da catedral de Notre-Dame, em Pa­ris, dois talhadores de pedras trabalhavam quando um passante pergunta-lhes o que estão fazendo. Um deles responde: "Estou quebrando pedras". E o outro diz: "Estou construindo uma catedral". A diferença entre os dois talhadores de pedra é a orientação do coração. Não somos apenas talhadores de pedras, algo grandioso está em construção. 

Palavras e atitudes revelam o que guardamos em nosso íntimo. Se considerarmos o ser humano como uma casa, o porão seria o local onde se guardariam todos os sentimentos ruins, pensamentos que se quer esquecer. O porão é o lugar dos objetos esquecidos. Coisas que não usamos com frequência e, às vezes, nunca usamos Guardamos no porão os utensílios de um ente querido que já não está entre nós, cuja lembrança nos remete aos momentos tristes da perda e, no entanto, não temos coragem de nos desfazer deles. É ali que, na imaginação fértil das crianças, escondem-se os monstros e vilões mais terríveis. O porão os mantem confinados à escuridão do esquecimento. 

O oposto do porão é o sótão. Ali as coisas são diferentes. Oi monstros imaginários das histórias infantis não ocupam o sótão. Afinal de contas, ali guardamos objetos que possuem utilidade frequentes, coisas que precisam ser vistas, tocadas, lembradas; as fotos de casamento, os brinquedos do filho que agora cresceu, as cartas recebidas que merecem ser relidas, lembranças que nos trazem prazer. O contraste é evidente, o sótão é em cima, o porão, embaixo. Aquele guarda sentimentos bons que devem ser lembrados; este, sentimentos ruins que devem ser esquecidos. 

O porão da alma é uma realidade que não deve ser negada. Nele os sentimentos são guardados, e quantos Judas não acumulou! Sentimentos que adoecem, corroem como câncer. Precisamos descer ao porão e enfrentar o problema de frente, Escondê-lo, trancafiá-lo, não resolverá a questão. Não se cura uma ferida fingindo sua inexistência, o máximo que se consegue é protelar o desfecho trágico. 

Lembro-me do capítulo três de Gênesis. Adão e Eva haviam desobedecido a Deus, e experimentaram, pela primeira vez, o gosto amargo do erro, a triste sensação de saber que erraram o alvo ("pecado", no grego é hamartía, "errar o alvo"). Deus então os procura, perguntando: "Onde estás?" (v. 9). 

A onisciência de Deus cede lugar à confissão humana. Adão expõe seu erro, enfrenta o problema: "... estava nu, tive medo, e me escondi" (v. 10). "Confessar", no original grego, é homologéo, "concordar com a declaração de outrem". Quando confessa­mos o nosso erro, concordamos que somos fracos, frágeis e dependentes do Senhor. Não podemos conviver com mágoas apodrecendo em nosso interior. Não se consegue viver por muito tempo quando "cardos" e "abrolhos" crescem e infestam os porões da alma. Eles não permanecem lá por muito tempo; um dia sobem as escadas, forçam a porta, quebram as trancas e Invadem todos os espaços da casa. Era o que Judas precisava fazer. Abrir o porão da alma, deixar que a verdadeira luz, que não se vê, mas que nos permite ver, iluminasse suas decisões, e a história seria outra. 

Jesus sabia da situação de Judas. E o momento decisivo era aquele, antes da instituição da ceia, no partilhar do anho pascal. Após a revelação da presença de um traidor, e das insis­tentes interrogações sobre sua identidade, um gesto inesperado: o bocado molhado é dado a Judas (Jo 13.26). O gesto, segundo o costume judaico, indicava que a pessoa que recebia o bocado molhado era a mais especial da festa, depois do anfitrião. Mais do que a indicação de Judas como traidor, um ato misericórdia. 

A palavra "bocado", no grego, psomion, não aparece em nenhuma outra passagem no Novo Testamento, só aparece aqui, momentos antes da ceia. O ato de Jesus pode ser entendido como um apelo final para que Judas abandonasse seu intento de traição e agisse como verdadeiro discípulo. [1] 

Notas 

1 - SANTOS, Roberto dos Reis. A Santa Ceia – Rio de Janeiro-RJ – CPAD, pg. 41 

Publicado anteriormente com o título A Celebração da primeira Santa Ceia no Brasil


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