7.6.09

Fé e razão são opostas?



O conflito entre fé e razão está presente desde muito cedo na história da igreja cristã. De fato, parece quase impossível, pelo menos para muitos cristãos, a idéia de reconciliar a revelação com a razão. A idéia que se tem, para parafrasear o teólogo anglicano Alan Jones, é que “quem pensa não tem fé, e quem tem fé não pensa”. Isso parece paradoxal, pois sem dúvida, os maiores pensadores da humanidade são encontrados dentro do universo cristão.


No texto de Atos 27:9-11 sobre o naufrágio por que passou Paulo, vemos esse conflito em evidência. Por um lado, temos o apóstolo Paulo valendo-se de uma revelação divina sobre os perigos iminentes que corria o navio no qual ele era transportado. Quando o apóstolo disse “vejo que a viagem vai ser trabalhosa”, não há duvidas de que ele se referia a uma revelação de Deus sobre a viagem da qual era participante. Em pa­lavras mais simples, Paulo teve uma revelação de Deus sobre o que poderia acontecer naque­la viagem. Por outro lado, o texto sagrado mostra que "o centurião dava mais credito ao piloto e ao mestre do navio do que ao que Paulo dizia". O centurião preferiu crer mais na técnica dos marinheiros do que em Paulo. Em outras palavras, o centurião preferiu acreditar mais na razão que na revelação.


No período pós-apostólico, o debate entre fé e razão cres­ceu em amplitude. A pala­vra razão nesse período soava como sendo um sinônimo de filosofia grega. Todavia, para muitos pais apostólicos, essa aproximação entre Atenas e Jerusalém cheirava a aposta­sia. Tertuliano, por exemplo, que foi bispo de Catargo, per­guntava em tom de denúncia: "Que relação há entre Atenas e Jerusalém? Que acordo há en­tre a Academia e a Igreja?" Para ele, a fé cristã e a filosofia grega eram irreconciliáveis.


Por outro lado, Justino Mártir, um ex-discípulo de Platão, acreditava que era sim possível esse diálogo. Em sua apologia, ele escreveu: "Eu sou cristão, glorio-me disso e, confesso, desejo fazer-me re­conhecer como tal. A doutrina de Platão não é incompatível com a de Cristo, mas não se casa perfeitamente com ela, não mais do que a dos outros, dos estóicos, do poetas e dos escritores. Cada um deles viu, do Verbo divino que estava disseminado pelo mundo, aq­uilo que estava em relação com a sua natureza, chegando desse modo a expressar uma verdade parcial. Mas, à medida que se contradizem nos pontos fun­damentais, mostram que não estão de posse de uma ciên­cia infalível e de um conheci­mento irrefutável. “Tudo aquilo que ensinaram com veracidade pertence a nós cristãos”.


Tertuliano e Justino Mártir são exemplos de pensamentos diametralmente opostos. No período medieval, esse debate é retomado com força, e dois expoentes do pensamento oci­dental vão se sobressair: Ago­stinho e Tomás de Aquino. Agostinho viveu no início da Idade Média, enquanto Aqui­no, no final. Se, por um lado, Agostinho, que foi bispo de Hipona, vai recorrer ao pen­samento platônico para fun­damentar seus argumentos teológicos, por outro Aquino irá cristianizar os ensinos de Aristóteles. Ao recorrer à filosofia aristotélica para funda­mentar seu raciocínio, Aqui­no, por exemplo, dizia que "os argumentos não devem ser aceitos pela autoridade de quem diz, mas pela validade do que se diz".


Enfim, é possível compati­bilizar a fé com a razão? Qual o perigo de se formar um abismo entre ambas?


Em primeiro lugar, o prob­lema está na grande confusão que se faz entre razão e racionalismo. O primeiro termo diz respeito à nossa capacidade de julgar, de pensar, de argu­mentar etc. A razão é salutar. Afinal, somos seres racionais. Fomos feitos para pensar. René Descartes dizia, na introdução de seu Discurso do Método, que todos nascemos com o bom senso. Porém, racionalismo é um termo aplicado à escola de pensamento que diz não haver nenhum conhecimento válido fora da razão humana. Em pa­lavras mais simples, aquilo que não puder ser explicado de for­ma racional deve ser rejeitado. Nesse caso, a revelação, que se encontra nos domínios da fé, não pode ser aceita como uma forma de conhecimento válido. Essa forma de pensar, que é filha da modernidade, é de fato a mãe do materialismo e do ateísmo.


Quando se privilegia a reve­lação em detrimento da razão, cria-se um campo propício para o surgimento de práticas incompatíveis com o cristian­ismo bíblico. Por exemplo, o livro Libertação da Teologia, escrito por um autor neopentecostal, diz: "Todas as formas e todos os ramos da Teolo­gia são fúteis. Não passam de emaranhados de idéias que nada dizem ao inculto; con­fundem os simples e iludem os sábios. Nada acrescentam à fé; nada fazem pelo homem senão talvez aumentar sua capaci­dade de discutir e discordar". Que princípio irá nortear uma igreja que acredita que a razão, que aqui é entendida como sendo o pensamento teológico sistemático, é fútil? Não irá essa igreja ter um conjunto de crenças práticas fora do mod­elo bíblico?


Essa forma de pensar é muito comum nos grupos restauracionistas. Hannah Whi-tall Smith, por exemplo, em seu livro O segredo cristão de uma vida feliz, escrito em 1870, acreditava que "o problema com a maior parte da religião de hoje em dia é sua extrema complexidade", acrescentando que a verdadeira religião evita "dificuldades teológicas [e] dilemas doutrinários (...) Nenhum treinamento teológico e nenhuma visão teológica em particular são necessários".


Em segundo lugar, a con­fusão é gerada por conta da­quilo que em filosofia se de­nomina "erro de categoria". A fé e a razão não são excludentes, mas sem dúvida per­tencem a categorias diferentes. Como explicar, por exemplo, a cura de um paciente termi­nal de câncer recorrendo a ar­gumentos racionais? A velha máxima de que milagres não se explicam ainda é válida. De fato, Paulo diz isso com outras palavras: "Ora, o homem nat­ural não aceita as coisas do Es­pírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente", l Co 2.14


Quando nos conscien­tizarmos que somos forma­dos por Deus tanto para crer (revelação) como para pensar (razão), então cessará o con­flito. A propósito, se o coman­dante do navio tivesse tido o bom senso de dar ouvidos ao que Paulo dizia, o naufrágio teria sido evitado.

Publicado no jornal Mensageiro da Paz - ano 78 - nº 1479 – Agosto de 2008 – Pg. 16

Confira também:

Oposição entre fé e ciência

Um comentário:

  1. ótima matéria.não podia sair deste sair sem parabenizar quem o fez.Parabéns.Não sabia nada de filosofia medieval mas agora já tenho uma base.Obrigado.

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