28.11.16

O pretenso desenvolvimento social do regime castrista em Cuba


Giuliana Arcocha Bergamo

Faz 5 dias que voltei de Cuba.

Escrevo este texto de um quarto de hotel em Boa Vista, Roraima, uma das cidades "invadidas" por venezuelanos que fogem da fome e do caos. 

O que vou relatar abaixo não tem a ver com o que vim fazer aqui, mas tem tudo a ver com os venezuelanos que eu encontrei pela rua. Tem tudo a ver com os cubanos. E comigo também.

Não fui a Cuba a trabalho. Mas ser repórter, para mim, é algo que vai muito além de trabalho. Se eu vim ao mundo para fazer algo, foi para contar para os outros o que eu andei vendo, ouvindo e sentindo por aí. Este texto é sobre isso.

Fui a Cuba com meu marido, o Diogo, o cara que eu amo, que eu escolhi para, junto comigo, fazer, parir e criar duas pessoas. Fui com o Diogo, um dos caras mais sérios, justos e comprometidos com a verdade dos fatos que eu já conheci na minha vida. O mais comprometido provavelmente. Tanto que, às vezes, acho que ele tem dificuldade de sonhar. E, talvez por isso, não mede esforços para realizar os MEUS sonhos. Ir a Cuba era um deles. Assim como foi pisar a neve pela primeira vez, cruzar a Amazônia, caminhar pelo Himalaia e atravessar um tapetinho até um altar improvisado vestida de noiva. 

Cuba foi nossa segunda lua de mel, a primeira viagem longa depois que tivemos filhos. Daqui a menos de dois meses, nossa primogênita, faz 6 anos. O fim da primeira infância dela é um marco. Comemorar era urgente. 

Por que Cuba? Porque Cuba, Fidel e Che me inquietam há tempos. Eu devia estar na sétima ou oitava série quando ouvi falar pela primeira vez de um lugar "onde todos eram iguais", mas as crianças pediam bala e canetas Bic aos turistas na rua. Lembro bem de uma professora que hoje, se estiver viva, deve ter uns 80 e tantos anos, dizendo que, quando menina, sonhava com Fidel fardado chegando em um cavalo branco para levá-la. Eu não entendia bem aquela paixão, era mais da turma das amigas da minha professora, as quais, dizia ela, eram apaixonadas por Che. Aos 15, ganhei dos meus amigos um poster do revolucionário argentino clicado por Alberto Korda. Preguei na parte interna do meu armário, onde ficou até eu deixar a casa da minha mãe, aos 24 anos. Na época em que ganhei o souvenir, nossa curtição era usar boina, fumar charuto e discutir sobre a revolução e o absurdo do capitalismo. De lá para cá, já perdi a conta da quantidade de vezes em que participei de discussões acaloradas entre a turma dos pró e a dos contra Cuba. Em todas elas, sempre havia um sujeito que tentava calar o opositor com o argumento: "Você nunca foi para Cuba, não sabe o que está falando!"

Eu precisava ir a Cuba para saber do que eu estava falando.

Então fomos lá, um casal de jornalistas, em lua de mel em Cuba. 

Em Cuba, eu vi gente cantando e dançando – muito bem – a cada esquina. Ouvir música e dançar em Cuba é comer macarrão com vinho na Itália, amar em Paris, escalar no Himalaia. Em Cuba, eu vi turista por todos os lados, vi os carros antigos (custam cerca de 18 mil dólares e são passados de pai para filho), vi as casas de pé direito alto onde os andares são divididos em dois para caber mais gente. Eu vi casas que desmoronaram de tão velhas, eu vi esgoto a céu aberto, eu vi os mercados só para cubanos onde a maior transgressão é vender amendoim direto à população, sem passar pelo governo. Eu também vi crianças com uniformes impecáveis, escolas cheias, com quadras poliesportivas e prédios não muito diferentes das nossas escolas públicas. Em Cuba, eu vi pouca gente doente na rua e banheiros públicos tinindo de limpos, mesmo que não saísse água da torneira ou da descarga (no do Museu da Revolução, uma senhora abastecia baldes que os visitantes enojadinhos usavam para mandar embora suas necessidades). 

Em Cuba, fiz questão de entrar em um hospital central de Havana para ver a tal fantástica medicina cubana. Dei de cara com um arremedo de pronto socorro público muito parecido com os que topei em minhas apurações no Brasil. Gente se desmilinguindo na sala de espera, chão limpo, mas todo detonado, salas vazias com paredes caindo aos pedaços e um médico-bedel nervoso com a minha presença. Enfiei a cara para dentro do laboratório e fui imediatamente transportada para a década de 1980, quando eu visitava minha mãe no laboratório de análises clínicas onde ela trabalhava. Nostálgico, mas eu sei bem o quanto a medicina andou de lá para cá graças aos novos equipamentos tecnológicos. Na rua, conversei com pessoas que – essa foi uma grande surpresa – têm esperança no governo de Trump. Para eles, Obama fez nada pelos cubanos. A retomada das relações foi apenas cosmética. 

Fiz também o roteiro do turismo "oficial" e fui aos museus. Circulando pelas centenas de fotos de Fidel, Che e outros combatentes, suas fardas, pijamas ensanguentados, restos de equipamentos e posters com palavras de ordem e frases de louvor, não conseguia parar de pensar nos trechos do texto que eu lera dias antes de viagem, do livro "A Verdade das Mentiras", de Mario Vargas Llosa: "Numa sociedade fechada, o poder não se arrega apenas o privilégio de controlar as ações dos homens – o que fazem e o que dizem: aspira também governar sua fantasia, seus sonhos e, evidentemente, sua memória." Lembrei do mesmo texto quando entrei nas livrarias, onde os poucos livros exibidos nas estantes quase vazias eram de autores aliados ao governo cubano. Não satisfeita, quis ter uma conversa franca com um cidadão, digamos, mais antenado. Na manhã de nosso último dia de viagem, W. (a conversa foi absolutamente informal, não me sinto à vontade de publicar o nome dele aqui), um jornalista cubano que resolveu desafiar o poder e contar a verdade das verdades e, por isso, paga com a própria liberdade, veio nos encontrar. Dias atrás, depois de cobrir uma ato pró-Trump (sim, teve isso em Cuba), o que ele mesmo julga uma "estupidez", W. foi preso por uma semana. Para proteger a mulher e a filha de 4 anos, W. não vive na mesma casa que elas. Vê a família aos fins de semana apenas. 

Quando foi nos encontrar na manhã do último domingo (20), W. estava tenso. Não, ele não temia estar sendo seguido. Já desistiu de se proteger. Sua aflição era pela prima, que estava em trabalho de parto desde o dia anterior. Eu, que já passei por isso de ficar parindo por horas duas vezes, pensei: "Coisa de homem. Parto é assim mesmo". Aí ele explicou melhor. Em Cuba, praticamente não tem parto cesáreo. "Tentam o parto normal até o fim." E eu novamente pensei: "Mano, você está no paraíso e não sabe!" Mas não era bem isso. Cesária é algo raro mesmo quando é necessária. Por isso, uma outra prima de W. perdeu um bebê que, por complicações de parto, morreu cinco dias depois de nascer. E eu com meus pensamentos novamente: "Mano, isso acontece direto no Brasil..." Só que o priminho de W. foi registrado como natimorto, uma estratégia safadinha para camuflar os dados sobre mortalidade infantil. E eu lembro de Llosa novamente: "Em uma sociedade fechada, a história se impregna de ficção, pois se inventa e reinventa em virtude da ortodoxia religiosa e da política contemporânea ou, mais grosseiramente, de acordo com os caprichos do poder."

Ao longo de nossa conversa e do passeio que fizemos pela periferia de Havana, W. criticou a miséria, a insegurança (a maior parte das casas tem grades), a censura, o povo que não promove a mudança de dentro para fora e fica à espera de um salvador. Em diversos pontos, continuei com minha discussão mental na linha "Mas o brasileiro pobre também passa por isso". 

Questionei W. sobre a educação, uma das bandeiras do governo e um dos argumentos mais utilizados pela turma pró-Fidel nas discussões dos bares da Vila Madalena, onde, aliás, os protagonistas costumam pagar fortunas por escolas onde seus filhos aprendam "a pensar". E eu me incluo nesse balaio aí. W.: "Sim, tem escola para todo mundo. Mas não tem educação. Tem adestramento. Educação, para mim, é ensinar a descobrir, a questionar, a fazer perguntas. Não é isso o que se ensina às crianças cubanas." Naquele ponto da conversa – e da viagem – eu já estava tristíssima, mas ainda não havia perdido a esperança de encontrar aquela partícula que meus amigos tão encantados pelos país em algum momento acharam. Eu queria ver algo de realmente bom, algo esperançoso. Eu queria achar o samba e o futebol do cubanos. Então perguntei: "W., os cubanos, pelo menos, são felizes de alguma maneira?" W. deu um sorriso irônico e contou uma história para responder minha pergunta. Há pouco tempo, foi contratado por uma agência de notícias para fazer um documentário com o tema "Projeto de Vida". A ideia era entrevistar conterrâneos para saber quais eram os planos para o futuro deles. "Todos deram a mesma resposta: 'Meu projeto de vida é sair daqui. Quero deixar Cuba'. Não, os cubanos não são felizes", disse W.. Terminamos aquela manhã tristíssimos, com um buraco no peito. 

Eu e Diogo continuamos rodando a cidade a pé (quase não usamos carro ou outro tipo de transporte), enfrentamos a fila da chocolateria onde cubanos e turistas esperam um tempão para comer o chocolate mais doce que eu já provei na minha vida, demos de cara com a loja de Benetton em Cuba (!!!) e dissemos "não" às crianças que, na rua, pediam "caramelos" (balas, em português). Voltamos ao hotel, jantamos no único lugar onde encontramos uma comida dessas que acolhem o estômago e a alma, o Paladar Los Amigos, uma espécie de restaurante que funciona dentro de uma casa. Depois, não tivemos mais disposição emocional para fazer nada. E fomos dormir para enfrentar a viagem de volta. 

No dia seguinte, na fileira atrás de nós no avião, uma brasileira chorava copiosamente. Aflitos, os passageiros ao lado tentaram confortá-la. Parei minha leitura que acabara de começar, de "A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera, para ouvir o que ela contou a eles. Chorava porque o "marido" tinha ficado em Cuba. Meses antes, os dois se conheceram no Brasil. Médico, ele viera trabalhar no Programa Mais Médicos. Apaixonaram-se, tentaram fazer com que ele ficasse aqui, mas não teve jeito. Por determinação do governo, ele precisou voltar. Ainda assim, tinha a esperança de ser enviado para uma nova missão, o que lhe foi negado. A moça voltava de uma temporada de um mês com seu amor, seu "marido", ela dizia aos vizinhos de voo. 

Ouvi a história, abracei meu marido, trocamos carinhos e retomei minha leitura com o coração apertado. Logo cheguei à parte do livro em que a Tchecoslováquia é invadida pelos russos e Tomas, um dos protagonistas, tem a possibilidade de imigrar para a Suíça. Noinício, pensa em ficar. Afinal, Tereza, sua mulher, estava no auge da carreira de fotojornalista. Surpreendentemente, ela diz que está disposta a se mudar, apesar de saber que, na Suíça, vivia uma das amantes de Tomas. Sobre isso, Kundera escreve: "Aquele que quer deixar o lugar onde vive não está feliz." E eu completo: seja ele um personagem de ficção, um venezuelano, um cubano ou eu mesma, quando, em viagem a trabalho, quero voltar para perto dos meus amores.


Publicado em 27 de novembro, em seu perfil no Facebook 

22.10.16

Discurso petista, privatização, partidos políticos: entrevista com Fernando Schüler



O cientista político e professor do Insper Fernando Schüler  falou ao Estado da Arte sobre o resultado das eleições municipais de 2016. Mais do que avaliar o desempenho trágico do maior partido da esquerda brasileira, o PT, para Schüler, este é o momento de pensar na boa gestão que o setor público pode e deve oferecer à sociedade. Diante das críticas a propostas de modernização na administração municipal, Schüler questiona: “Será que as pessoas sabem que o Central Park, em Nova York, é gerido por uma organização privada? Que o mesmo acontece com o sistema de bibliotecas públicas da Big Apple, que funciona perfeitamente bem?”.

O PT sofreu uma derrota eleitoral acachapante neste domingo. Até o momento, no entanto, não houve sinal de autocrítica ou de mudança de estratégia política. O PT consegue se recuperar eleitoralmente sem mudar de discurso?

Não vejo sinais de que o PT mudará seu discurso, nem sua forma de agir. Esta semana mesmo seus deputados já estavam lá, com a habitual “estética da certeza”, dedo em riste, atacando a PEC 241, do controle do gasto público, no Congresso. É curioso ver como os argumentos de hoje são semelhantes aos que o partido usava para se opor à Lei da Responsabilidade Fiscal, em 2000. Depois se mostrou arrependido, mas agora faz tudo de novo. É um problema de DNA. Faria bem ao Brasil ter uma esquerda moderna, como teve o Chile, a Nova Zelândia e tantos países europeus. Infelizmente, não acho que será o caso do PT. O PT tem o vezo da velha esquerda latino-americana e sua incapacidade de entender uma economia moderna. Fazer o quê? Quanto ao sucesso eleitoral, tudo é possível. Mas intuo que o PT tende a se transformar em um partido de lideranças regionais, de menor porte, e dificilmente voltará a ser um partido com um projeto nacional. A sociedade virou esta página.

Fernando Haddad (PT) foi identificado por uma parcela do eleitorado como um prefeito moderno, especialmente por suas pautas de mobilidade urbana. João Doria (PSDB) se elegeu prefeito da cidade no primeiro turno com um outro tipo de discurso moderno: o discurso do gestor, que assumiu a bandeira da privatização e das parcerias com a iniciativa privada.  Para que projeto de modernização caminha São Paulo?

Confesso ter uma boa impressão de Fernando Haddad. Ele foi corajoso ao legalizar os aplicativos de transporte urbano, em São Paulo, e acertou no tema das ciclovias. Isto não quer dizer que fez uma ótima gestão. Ele falhou no tema da modernização da administração municipal. Exemplo disso foi o erro de regulação da OS, no Teatro Municipal. Acho que Haddad deveria aproveitar este período pós-prefeitura para ir ao exterior, fazer um período sabático, renovar as ideias. Ele tem uma contribuição grande a dar.

Quanto ao Doria, penso que ele é o primeiro grande político brasileiro a apresentar um discurso político claramente moderno, em termos de gestão. Falou de privatizações, sem medo, e assumiu sua condição de empresário empreendedor. É um político pós-ideológico, de tipo pragmático, que lembra muito o Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York. Ele é a expressão da São Paulo contemporânea, globalizada. Tem tudo para fazer uma ótima gestão.

O PSDB perdeu o medo das privatizações?

Penso que é a sociedade como um todo que está mais aberta a este tema. Mas é preciso considerar o seguinte: o Brasil não é São Paulo. São Paulo possui apenas 15% da mão de obra vinculada ao setor público. Há 15 capitais brasileiras com cerca de 30% ou mais de funcionários públicos na força de trabalho. Na minha cidade de origem, Porto Alegre, a venda de um terreno público, via leilão, ou a concessão do cais do Porto ou a construção de um presídio em PPP gera uma comoção pública. Parte da sociedade brasileira ainda confunde o “público” com o “estatal”. As corporações, no Brasil, têm sido muito hábeis em apresentar sua própria agenda como uma pauta da sociedade. Então o “ensino público” é compreendido como “ensino estatal”. E há gente que ainda acredita que estamos “entregando nosso petróleo” quando votamos um modelo de concessão da exploração do pré-sal no Congresso. Meu ponto é: ainda somos uma sociedade estamental, em boa medida, e o sistema partidário reflete essa cultura. Mas as coisas estão mudando. Quanto ao PSDB, vamos lembrar que foi o partido que conduziu o maior programa de privatizações do país, nos anos 90. E conduziu bem, diga-se de passagem. Intuo que em 2018 esse tema estará novamente no centro do debate eleitoral.

Que autonomia tem a administração municipal para fazer uma gestão diferente da máquina pública? É possível introduzir novos regimes de contratação ou de avaliação de desempenho no serviço público municipal?

Sem dúvida. Há muitas experiências exitosas de introdução de meritocracia, no setor público. As pessoas não se dão conta, mas em 2015 o Governo do Estado de São Paulo pagou R$ 1 bilhão em bônus por desempenho para mais de 230 mil professores. Estados como Espírito Santo e Pernambuco têm experiências exitosas, nesta direção. Não tenho dúvidas de que Doria irá por este caminho. E sugiro que ele comece rápido. Quanto à contratualização, é evidente que este é o caminho. Um exemplo: Doria acabou de anunciar que irá conceder a gestão do Parque do Ibirapuera à iniciativa privada. Teve gente que não gostou. Mas será que as pessoas sabem que o Central Park, em Nova York, é gerido por uma organização privada? Que o mesmo acontece com o sistema de bibliotecas públicas da Big Apple, que funciona perfeitamente bem? As pessoas sabem que, no Brasil, modelos de contratualização são adotados na OSESP, na Pinacoteca do Estado, no Hospital Sara Kubitschek, no IMPA, no Hospital do Câncer do Estado de São Paulo, com grande sucesso? Outra coisa: qual é o sentido de uma cidade como São Paulo administrar um autódromo? Ou um estádio de futebol? O Estado precisa escolher prioridades e focar sua atuação naquilo que ele realmente precisa fazer, e fazer bem feito. Criar ambiente atrativo para novos negócios, por exemplo. Reduzir a burocracia. Levar infraestrutura e segurança de modo a dinamizar a economia das regiões periféricas. Acho que a sociedade vem compreendendo isto cada vez mais.

Como secretário de justiça no Rio Grande do Sul, você criou uma legislação para as Organizações Sociais (OS’s). Na cidade de São Paulo, uma OS — a que administra o Teatro Municipal — está envolvida em um escândalo de corrupção grave. Qual é a eficácia desse modelo de gestão? 

A corrupção não é um privilégio deste ou daquele modelo de gestão. Todos assistimos o que ocorreu com a Petrobrás, que é uma empresa estatal. Há um histórico de fraudes, no Brasil, da Lei 8.666, das licitações públicas. A vantagem do modelo OS é que o governo retoma o controle sobre o ente jurídico contratado. Pode fiscalizar, acompanhar o cumprimento de metas e – mais importante – descontratar quando o desempenho foi insatisfatório. Eu sempre pergunto: de que jeito o governo “descontrata” uma repartição pública, uma escola estatal, por exemplo, quando ela não apresenta bons resultados? A resposta é simples: não descontrata. Ela continua lá, e os estudantes é que pagam a conta. No caso do Teatro Municipal, houve um grave erro de regulação do sistema. O modelo OS, para funcionar, supõe seleção pública dos contratados e uma estrutura mínima e independente com força para acompanhar a execução das metas e a gestão orçamentária das organizações. Sem isso, é melhor nem começar. Gostei muito da proposta lançada por Doria de “mini agências reguladoras” do sistema OS, na prefeitura. É óbvio que tudo precisa ser bastante enxuto, mas com gente altamente especializada e com força para agir.

Tentativas de reformas no sistema de ensino estatal de educação geram sempre muita resistência. Em Goiás, o governo (PSDB) propôs o modelo das OS’s para a educação e enfrenta ainda hoje o desafio das corporações e dos sindicatos. Como conduzir essa debate com a sociedade? 

Eu tive a oportunidade de conhecer o modelo das charter schools, em Nova York. São escolas privadas, de alta performance, totalmente gratuitas, voltadas ao público de menor renda, sob contrato de gestão com a prefeitura. Fiquei emocionado quando vi crianças pobres, imigrantes, 95% latinos e negros, em uma escola de alto padrão. Professores e alunos orgulhosos, resultados acima da média das escolas públicas tradicionais. Quando vejo a “resistência” de grupos estudantis a uma inovação como esta, em Goiás, fico me perguntando: será que eles sabem disso? Será que eles não deveriam avaliar com mais cuidado o novo modelo, com uma postura proativa, buscando eficiência, em vez de simplesmente reproduzir a pauta sindical? No mundo inteiro, corporações de professores públicos são avessos à modernização do ensino. Isso é lamentável, mas é a realidade. Os alunos mais pobres deveriam inverter a pauta: exigir o direito de estudar nas mesmas escolas que os filhos das famílias mais ricas. Deveriam ir na contramão do discurso corporativo, e imagino que só não o fazem por força da inculcação ideológica.

Entre os partidos que se apresentaram como novidade política, a Rede, de Marina Silva, ficou muito aquém do esperado. Já o Partido NOVO, com sua pauta liberal, teve um desempenho surpreendente — especialmente em São Paulo, onde fez mais votos que partidos tradicionais como PDT e PP. Há um avanço de uma pauta liberal? 

No caso da Rede, é curioso perceber que Marina Silva anda à frente de seu próprio partido. No dia seguinte às eleições, li um manifesto de intelectuais, liderado por Luiz Eduardo Soares, cuja pauta me pareceu um retorno à órbita política do petismo. A velha demarcação “esquerda x direita”, a ideia tosca de que as reformas estruturais da previdência, da CLT e do gasto público são um “ataque” aos direitos dos trabalhadores. A retórica banal do “golpe” e coisas nesta linha. Marina me parece uma liderança arejada e com vontade de mudar. O candidato da Rede, em São Paulo, Ricardo Young, da mesma forma, me pareceu apresentar novas pautas e uma postura muito interessante. Mas este não é o perfil da Rede como um todo, infelizmente. Há ali ainda muita gente que simplesmente não consegue romper com a estrutura conceitual da esquerda tradicional. Daí não tem jeito. Quanto ao Partido Novo, penso que ele é mais um “movimento” e menos um partido com aspiração real de poder. O Brasil é um país quase único, no planeta, com a combinação perversa de carga tributária alta, renda média para baixo e forte desigualdade social. O Estado é grande e concentrador de renda. Transfere dinheiro de toda a sociedade para a burocracia do setor público e para setores empresariais que vivem à base de incentivos fiscais e dinheiro subsidiado. O caso da Zona Franca de Manaus é emblemático. O caso do FGTS é absurdo. A legislação trabalhista é um enorme atraso. O curioso é que tudo isto, que trava o País e penaliza os mais pobres, é visto como “progressista”. Tendemos a confundir a ideia de um Estado garantidor de direitos com a noção de um governo grande e frequentemente fraco. Nesse cenário, é evidente que um partido de corte liberal faz muito sentido. Penso que o Novo pode dar uma grande contribuição ao país.

30.9.16

Minha declaração de apoio a José Luiz Galvão, candidato à vereador em São Carlos - SP

Com José Luiz Galvão

Ser cidadão e exercer a cidadania de forma plena requer, dentre outras ações, a participar do processo de construção de propostas e valores que possam contribuir com o crescimento e desenvolvimento da cidade onde vivemos e que tanto amamos. 

No processo democrático, o exercício da cidadania no aspecto político pode se dar por meio de duas opções, que não são autoexcludentes, e que podem até mesmo se complementar. A primeira é se candidatar a um cargo eletivo, a segunda é apoiar alguém que tenha vocação para tal cargo. 

Eu optei pela segunda. 

Apoio José Luiz Galvão, candidato à vereador. Acredito que, sendo eleito, seu mandato nos possibilitará reconhecer em suas realizações a máxima de Mário Covas, que afirmou: "é possível conciliar política e ética, política e honra, política e mudança".


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