11.3.12

O sono da razão


As lições de Goya e a teologia na igreja evangélica brasileira


Luiz Sayão

Francisco de Goya foi um dos grandes expoentes da pintura espanhola. No final do século 18, o pintor romântico fez história ao deixar-nos seu famoso quadro, o Sonho da Razão.  Nele, Goya expressa o que marcou muito a sua existência: o sonho da razão produz monstros. Os anos passam e os contextos se multiplicam, mas as lições de Goya e sua obra ainda nos atingem. 

O Sonho da Razão
Não há como negar que nós evangélicos estamos diante do “Sono da Reflexão Teológica”. É o nosso“sono da razão”. É claro que não se deve ingenuamente pensar que um mundo racionalista e iluminista nos traria um mundo melhor. O nosso mundo “civilizado” e “evoluído” tantas vezes comprovou como isso é fatal e desolador. Hoje vemos uma efervescência evangélica no Brasil que impressiona. Alguns até sugerem que em breve metade do país será evangélico. Todavia, o multiforme mundo evangélico precisa amadurecer e crescer na direção certa. Para isso é preciso “despertar o seu bom senso”, é preciso “acordar a razão”. Esse despertamento, que deve ocorrer pela reflexão teológica promovida pela boa literatura na área, é uma necessidade urgente. Afinal, temos vários monstros soltos nos descaminhos evangélicos atuais.

Vamos destacar alguns: 

O monstro do misticismo de grupos que enxergam objetos como capazes de libertar uma energia mágica que resolverá todos os dramas humanos. Como faria bem um pouco de reflexão teológica para quem está nesse caminho! 

O monstro do sectarismo, que solapa a unidade cristã e prejudica o evangelho. Geralmente temos grupos que nunca abriram a mente para refletir sobre o texto bíblico, mas apenas reproduzem uma perspectiva tacanha e limitada da fé e a universalizam ingenuamente. Como isso confunde a cabeça de quem não conhece a Cristo! 

O monstro da beligerância. Como tem sido assustador descobrir a rispidez e a agressividade que permeia certos desencontros de uma comunidade que devia ser marcada pelo amor. Quantos grupos, denominações, linhas de pensamento estão em verdadeira guerra contra outros, e muitas vezes por motivos políticos e de poder. É de chorar. 

O monstro da indiferença que nasce de preocupações irrelevantes, de questões inúteis e até fúteis. Há uma torpe indiferença para com uma sociedade que agoniza sem esperança. É o abandono do sonho do reino e o triunfo do “rei na barriga” que gera desprezo para o que realmente importa. 

Espero que estas poucas linhas nos ajudem a reconhecer nossa ignorância, a estudar mais, a nos humilhar mais diante do Deus tão sábio e a respeitar mais o próximo e a compreender seu universo e a ser menos arrogante. Acorde razão!

Fonte: Revista Vox - edição 1 - 1º trimestre de 2012 - Editora Hagnos

8.3.12

A dignidade feminina resgatada pelo cristianismo


Gutierrez Siqueira

A França proibiu o uso de burcas no espaço público. A burca é uma vestimenta feminina muçulmana que cobre todo o corpo, inclusive os olhos com uma fina tela de pano. Este texto não é sobre a polêmica proibição do governo frânces, mas sim para falar como a fé cristã libertou as mulheres de muitas opressões. 

Costumamos ouvir dos secularistas radicais que toda desgraça no mundo é culpa do Cristianismo, mas eles esquecem os grandes benefícios civilizatórios trazidos pelos cristãos no decorrer dos séculos. As feministas, por exemplo, detestam a fé cristã considerada por elas como machista. O teólogo Timothy Keller escreveu sobre a nova visão feminina advinda com o Cristianismo primitivo:

Esta declaração pode surpreender muitos leitores que ouviram dizer que religiões mais antigas e o paganismo tinham uma visão mais positiva quanto às mulheres do que o Cristianismo. Era extremamente comum no mundo greco-romano livrar-se de bebês do sexo feminino deixando-os morrer por exposição às intempéries, devido ao status inferior das mulheres na sociedade. A Igreja proibiu seus membros de praticar tal ação. A sociedade greco-romana não valorizava as mulheres sem marido, e era ilegal uma viúva levar mais de dois anos para casar-se novamente. O Cristianismo, porém, foi a primeira religião a não obrigar as viúvas a se casarem. Elas eram sustentadas e respeitadas dentro da comunidade para que não sofressem uma pressão exagerada para arranjar outro marido. As viúvas pagãs perdiam todo o controle sobre o patrimônio dos maridos falecidos quando voltavam a se casar, mas a Igreja permitia que as viúvas mantivessem o patrimônio do marido falecido. Finalmente, os cristãos não acreditavam em coabitação. Se os homens quisessem viver com uma mulher, eram obrigados a casar-se com ela, o que provia muito mais segurança a estas. Igualmente, o duplo padrão pagão de permitir aos homens casados patricarem sexo extraconjugal e ter amantes era proibido pela Igreja. Como todas essas diferenças, as mulheres cristãs gozavam de segurança e iguadade muito maiores do que aquelas pertecentes à cultura ao redor [KELLER, Timothy. A Fé na Era do Ceticismo: Como a Razão Explica as Crenças Divinas. 1 ed. Rio de Janeiro: Campus-Elsevier, 2008. p. 210]

E o coitado do apóstolo Paulo? Ele é tido como machista até por crentes analfabetos de Bíblia. No capítulo 7 de I Coríntios, o apóstolo deixa bem claro que o prazer sexual deve ser mútuo entre o casal, não sendo nada forçado. Portanto, o marido não pode obrigar sua esposa a fazer uma relação que ela não quer e vice-versa: 

O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido. A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio (v. 3-5 NVI).

Esse é um texto de dois milênios. É um texto falando que o homem tem responsabilidade com sua mulher, da mesma forma que a mulher tem para o seu marido. Não foi algo escrito na década de 1960, mas sim no primeiro século da Era Cristã. Não é um texto machista e nem feminista, pois são dois extremos autoritários. É um texto equilibrado. 

E os maridões que sempre lembram: “A Bíblia manda a mulher ser submissa ao seu esposo”. É verdade, está lá em Efésios 5.22, escrita por Paulo. Mas será que esse povo esquece o contexto? Vejamos:

Maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. Da mesma forma, os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo faz com a igreja, pois somos membros do seu corpo. "Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne". Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à igreja. Portanto, cada um de vocês também ame a sua mulher como a si mesmo, e a mulher trate o marido com todo o respeito. (v. 25-33).

Pergunto: A mulher teria dificuldade de respeitar um homem que a ama sacrificialmente? A relação é de equilíbrio. Não distorçam a Bíblia para machismo ou feminismo. O Cristianismo é o resgate da mulher. E olha que nem comentei a relação de Jesus Cristo, o homem-Deus, com as mulheres, incluíndo sua mãe.

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